Foi-nos proposta a pesquisa e recolha de 20 fotografias, as quais foram individualmente classificadas de 1 a 5. Dentro das melhores classificadas tivemos que seleccionar apenas duas, uma para nós mesmos analisarmos e outra para enviarmos a um colega, no meu caso o Ivan (que foi devidamente escolhido pelo professor) que por sua vez também ficou encarregue de enviar uma das suas.
Passo então a apresentar as minhas críticas pessoais das fotografias escolhidas por mim e pelo meu colega, respectivamente.
Passo então a apresentar as minhas críticas pessoais das fotografias escolhidas por mim e pelo meu colega, respectivamente.
ROBERT DOISNEAU
Formalmente, os aspectos que mais aqui se impõem são, sem dúvida, a composição e o seu dinamismo. Estes resultam do enquadramento das personagens (que funcionam estruturalmente como linhas rectas verticais) com o ambiente circundante, chamando especial atenção ao recorte expressivo da ponte obtido através do contraste entre a calçada da ponte e a luminosidade do rio num plano recuado.
No entanto o ponto fulcral da fotografia é a figura no primeiro plano, especialmente a sua expressão, pela sua reacção espontânea e natural, reforçadas pela luminosidade do céu, do rio e do acordeão que leva consigo, que contrastam com o seu casaco e cabelo escuros.
Podemos também aqui encontrar diversas texturas como o liso (como é o caso da madeira polida do acordeão), o rugoso (como o tecido dos casacos), o líquido (no rio), o gasoso (no céu enevoado) e o sólido (na calçada de pedra e no corrimão de ferro).
Analisando agora os aspectos narrativos da imagem: nesta, a personagem apresentada em primeiro plano trata-se de uma acordeonista possivelmente a caminho ou de retorno de uma actuação.
Visto que outras suas imagens foram captadas numa compilação de Doisneau em Paris ( "Doisneau Paris"), presumo que esta também faça parte desse mesmo conjunto, presunção esta que devido ao local em questão penso fazer todo o sentido (não fosse Paris a capital da arte incluíndo obviamente a música, e o acordeão o favorito instrumento das ruas parisienses).
Podemos ainda notar na sua expressão algum cansaço e sonolência certamente devido à vida instável de músico que leva, e na constante atracção para o fundo da fotografia que lhe está submetida devido à sua postura em andamento, reforçado pela pose de espera da personagem em segundo plano.
Por detrás de toda esta narrativa subentendida e excelente composição, será impossível não reparar no forte carácter estético/poético da situação. O simples facto de Doisneau ter conseguido captar tal momento, tão espontâneo e natural, confere-lhe logo um carácter único, uma espécie de imortalização do momento, que o torna tão expressivo e um tanto onírico. Através do olhar compromissivo da acordeonista e da sua expressão relaxada olhando para o espectador, faz com que este, de certo modo, se sinta participante na própria fotografia como se estivesse estado presente no momento do disparo.

(autor desconhecido)
O que nos desperta mais atenção nesta fotografia em termos formais é o forte contraste sombra/luminosidade. Este aspecto atinge o seu auge na apresentação do ponto fulcral da fotografia, as moedas, que através de uma sombra exagerada manipulada virtualmente (como me parece ser em todo o trabalho mas especialmente aqui) as realça da luminosidade da pele da mão (região que por sua vez contrasta com as extremidades da mesma).
Factor que também enriquece a composição é a expressividade das texturas apresentadas, com especial atenção para o contraste entre o cupro-níquel das moedas com a rugosidade da pele suja das mãos.
Falando agora da composição/enquadramento da imagem, esta é bastante simples devido ao seu carácter central (local do foco principal) não deixando de haver, no entanto, um certo dinamismo conferido pela direcção do pulso para a extremidade superior direita da fotografia e pela direcção dos dedos.
Quanto aos aspectos narrativos da imagem podemos facilmente deduzir o tema: a pobreza do trabalhador. A ideia de trabalhador é nos transmitida também através da farda apresentada mas principalmente pela sujidade e rugosidade das mãos, não fossem as mãos sujas e calejadas precisamente o símbolo do trabalhador.
A moeda, o símbolo do poder económico, aqui adquire o significado contrário, a pobreza, devido ao seu escasso número e baixo valor monetário.
Estética e poeticamente, esta está carregada de uma forte carga emocional (realçada pelo forte contraste como já foi anteriormente referido). Podemos então, apesar do seu aspecto forte e rude, notar alguma fragilidade na postura da mão, uma fragilidade principalmente psicológica, mas também física, provavelmente devido ao cansaço de trabalhar.


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